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Wednesday, 17 February 2016

Quando você sai da sua zona de conforto




Quando você sai de casa e muda de país a sua relação com os seus pais muda. Você não pode mais pedir pra sua mãe fazer sua comida preferida no almoço de sábado, nem perguntar se ela pode trazer iogurtes quando voltar do mercado. Não pode mais pedir pro seu pai trazer pizza na quinta à noite, nem pode ligar pra ele ir te buscar se estiver chovendo quando você descer do ônibus.
Você percebe que pode sim viver sem eles, mas descobre o quanto é  doído pensar em não ter eles do seu lado. A admiração por eles e pelo quanto você sabe que eles se desdobravam por você e pelos seus irmãos cresce em proporções estratosféricas. Se dá conta de que saudade dói. Dói muito. Quase fisicamente, e que quando eles diziam que amor de pai e mãe é a coisa maior do mundo, você não tinha noção, mas eles não estavam brincando e a sua dose de reciprocidade aumenta de um jeito nunca antes imaginado.
Quando você muda de país sua relação com Deus muda. Seja lá qual for sua crença, Jesus, Ogum ou Alá, pode acreditar que você vai sentir que está mais perto Dele e que Ele está mais perto de você. Talvez pelo fato de que (especialmente no início dessas experiências) geralmente você passa mais tempo sozinho, porque está descobrindo as novidades ou porque ainda não tem atividades que preencham seu tempo livre. Talvez pelo fato de surgirem muitas dúvidas sobre o novo, o desconhecido, sobre a vida. E aí que o nosso bate papo diário, é com Ele, que mesmo sem nos dar as respostas na lata, do jeito que a gente gostaria, passa conforto e aponta o caminho. 
Todo agradecimento, todo devaneio, toda angústia, é Ele quem sabe primeiro, e pode crer que ele está ouvindo cada vez que você pensa ‘E agora, Meu Deus?’ E apesar de todo frio na barriga, você é invadido por uma certeza, como nunca antes, de que não está sozinho, até quando a vida parece meio solitária.
Você descobre que não precisa de nenhum conjunto de palavras marcadas pra falar com Deus, o canal direto entre vocês funcionam como nunca! Num tete-a-tete infindável. Você pensa e já sente que foi ouvido, o tempo todo. No café da manhã, no metrô, nas paisagens recém descobertas daquele lugar que você acabou de escolher pra chamar de lar.
Aprende também o que é respeito à religião alheia quando entende que estando longe de casa, a única coisa que nos acompanha e nos parece familiar é a nossa fé. A sua forma de rezar, orar, falar com Deus, vai continuar da mesma forma como era antes, e essa é a única coisa. Todo o resto, o ambiente, as pessoas, o idioma, a comida.. tudo muda, mas o momento em que você fala com Deus, continua igual, só que mais forte, mais intenso, com mais proximidade e você passa a se sentir mais confortável com o fato de que outras pessoas também tenham algo em que acreditar que as façam bem, mesmo que seja completamente diferente do que você está acostumado, mas que é melhor do que não ter fé em nada.
Quando você muda de país, sua relação com seus amigos muda. Talvez até sua percepção sobre amizade. Fica mais nítido que sentimento tem menos a ver com tempo e mais com compartilhar dos mesmos valores. Você se dá conta de que aquele papo de que a distância não afasta é verdade (mais ainda com toda a tecnologia de hoje em dia) e que às vezes aquele ombro amigo que você tanto precisava é capaz de atravessar o oceano pra te encontrar, mesmo que com o fuso desajustado.
As comemorações pelas conquistas dos seus amigos passam a ser ainda mais verdadeiras e vibrantes, talvez pelo fato de saber que aquela velha história do “vamos marcar um barzinho na sexta pra comemorar” não vai colar, você não vai estar lá pra dar um abraço, então tem que emanar uma energia e uma vibração ainda maior.
Quando você sai de casa a sua relação com você mesmo muda. Você descobre que pode fazer coisas que antes não se achava capaz, descobre que tem mais energia do que pensava, e começa a ver o quanto em comum você tem com os seus pais e com os valores que eles te passaram. É engraçado se perceber em tantos momentos pensando “como diz a minha mãe, ...” ou “se o meu pai visse isso, ele falaria...”
Você aprende a se ver como gente grande sem deixar de acreditar que sonhos podem virar realidade, que mágicas acontecem no seu destino e que você é o protagonista da sua maior aventura. 

1 comment:

  1. Lindaaaaa, amo muito seus textos. Mesmo não vivendo as mesmas experiências que vc, com eles me sinto vivendo algumas delas, fascinante, né? Tenho certeza que vc vai ter muita coisa para me ensinar quando voltar, mas já aprendo demais com vc ai do outro lado do Oceano. Que esse Deus que está mais pertinho de você agora esteja sempre te protegendo, te amo muito, amiga querida! Mil beijos carinhosos...

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